Lendas do Porto e de Vila Nova de Gaia - Apresentação no Congresso da Mestre Emilia Lemos
Lendas do Porto e de Vila Nova de Gaia :
- percursos do imaginário popular pelo espaço urbano
Os Portugueses são um povo muito imaginoso. Camões, sob sugestão de Petrarca, chega a dizer:
Transforma-se o amador na coisa amada
Por virtude do muito imaginar.
O povo diz:
Imaginações e cuidados
São o manjar dos amantes.
Vasconcelos (1980 vol IV:480)
Emília Lemos
(2006)
O Reimão e o Mollete
- O texto é um reconto da lenda «O “Reimão” e o “Mollete”» registada n `O Tripeiro (1910) sem referência de autor (narrador).
Texto:
Segundo conta o povo, o topónimo Reimão, que se referia a um local da cidade do Porto, recua ao período das invasões francesas.
Um soldado chamado Reymont, que viera integrado nas hostes napoleónicas, afeiçoou-se de tal modo à cidade que nela pensou ficar a viver.
Este Reymont instalou-se num lugar que, na época, era extremamente aprazível e que tomou a designação do seu nome «à moda» da nossa língua: Reimão.
Para ganhar a vida, e talvez como forma de ser aceite pelo povo de uma cidade que ainda sentia as duras consequências das invasões napoleónicas, dedicou-se à profissão de padeiro.
Começou, então, a fazer um pão mole a que ele chamava «mollet» ou «pain mollet». Esta designação adquiriu tal fama que o vocábulo «molete» é popularmente utilizado pelos tripeiros para se referirem ao comum pão de trigo.
Cedofeita
A Conversão do Rei Reciário
- Esta lenda (adaptada) foi registada por Pinho da Silva (em «Duas Lendas Tripeiras», O Tripeiro. Série Nova-AnoVI/nº4, 1986, pp. 123-124)
Conta-se que Reciário, rei dos Suevos da Galécia e «hereje» ariano, tinha um filho gravemente doente. Na sua aflição, lembrou-se dos tão apregoados milagres de S. Martinho de Tours e resolveu mandar emissários ao seu túmulo com ricos presentes.
Os emissários regressaram; os presentes lá ficaram... mas o menino não melhorou.
Reciário, aflito, mandou de novo emissários, mas, desta vez, oferecendo a sua conversão à fé de Cristo. Agora sim: o menino curou-se.
E como Reciário tivesse encomendado relíquias do santo, houve necessidade de erguer um templo onde as guardar.
Quando as relíquias seguiam, de França, num veleiro, para esta cidade, Reciário, aflito, queria esse templo “cedo feito” e, por isso, obrigou os pedreiros a trabalhar noite e dia, sem descanso, dizendo-lhes:
- Quero a igreja “cedo feita”!
Daí ter ficado este o seu nome até aos nossos dias.
A Rainha Curiosa e Devota
- Esta lenda (adaptada) foi registada por Pinho da Silva (em «Duas Lendas Tripeiras», O Tripeiro. Série Nova-AnoVI/nº4, 1986, p.124)
Conta, pois, a segunda lenda que, passando por aqueles sítios uma rainha com o seu séquito, viu ao longe umas obras, e aproximando-se destas, observou uma grande azáfama de pedreiros ao mesmo tempo que ouvia
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca.
Curiosa, como a Eva malfadada, imediatamente se apeou para inquirir que obras seriam aquelas.
Logo a informaram que se estava ali erguendo uma igreja, e devota como era, a rainha, suspirando, aprovou a piedosa construção dizendo:
-Ah! Uma igreja! Pois então... cedo feita! Cedo feita!
E em tão boa hora o disse que se ficou chamando não só o templo como o próprio lugar onde o ergueram:
Cedofeita!
Pedro Sem
- Esta lenda (adaptada) foi registada por Fernanda Frazão (em Lendas Portuguesas vol II: pp. 35 -40).
Pedro Cem vivia no seu Palácio da Torre, no Porto, na época em que as primeiras naus começaram a chegar da Índia carregadas de especiarias, tecidos, perfumes... Pedro Cem era um mercador muito rico mas sem títulos nobiliárquicos, facto que muito o incomodava.
Mandara à Índia naus que armara à sua própria custa e nas quais depositava esperanças de aumento de fortuna e, quem sabe, pudesse então ascender a essa categoria social que lhe estava vedada por nascimento.
Pedro Cem era também usurário, emprestando dinheiro a juros muito altos, não se importando com a miséria dos que lhe pediam dinheiro emprestado. Por isso, o seu Palácio da torre era uma espécie de museu onde existiam os tapetes mais raros, as porcelanas mais finas e várias baixelas de ouro e prata, onde se comprazia em servir os seus inúmeros convidados.
Estavam as suas naus para chegar quando conseguiu realizar a máxima ambição da sua vida: adquirir nobreza.
Aconteceu tudo por causa de empréstimos que há tempos vinha concedendo a um certo nobre arruinado. A quantia emprestada chegara a um tal montante que Pedro Cem decidiu jogar a sua cartada: ou lhe era paga a dívida ou a justiça real interviria a seu favor. Porém, a dívida poderia ser perdoada e esquecida mediante um simples contrato de casamento com a filha única do dito nobre, contrato que incluiria como dote da donzela todos os bens hipotecados e os que ainda não estivessem vinculados. Sem alternativas, o nobre senhor aceitou as condições impostas pelo usurário e celebraram-se os esponsais.
As festas dos esponsais duraram quinze dias consecutivos e foi nessa altura, era Primavera, que vieram anunciar a Pedro Cem que as suas naus se preparavam para entrar na barra do Douro.
Eufórico, reuniu os seus convidados e subiram todos ao terraço da torre, para contemplarem a visão das naus a entrarem no rio. Arrebatado pelo espectáculo e antegozando todo o ouro, pedras preciosas e outras maravilhas em que em breve tocaria, Pedro Cem bradou:
- Agora, desafio o próprio Deus a que me faça pobre!
Pela força do vinho que corria na festança, ninguém deu pela blasfémia. Desceram as escadas e voltaram aos salões a fazer tempo para se deslocarem à praia assim que as naus ancorassem e fosse iniciada a descarga dos porões.
Entretanto, o céu, que estava límpido, ficou completamente negro, ameaçador. Lá fora, a chuva desabou a cântaros!
Pedro Cem correu ao terraço e presenciou um espectáculo aniquilador: à luz dos relâmpagos, as naus vogavam desgovernadas, submergindo uma a uma na foz do rio.
- Maldição, maldição! – rugiu Pedro Cem.
Repentinamente também a casa fora atingida por uma faísca, que fez deflagrar um incêndio. A tempo fugiram os convidados, fugiu a noiva, fugiu Pedro Cem.
Da torre só sobraram as paredes chamuscadas. Num instante as forças da Natureza consumiram todos os bens do homem que se sentira tão poderoso que ousara desafiar o próprio Deus.
Passados meses, já esquecido o rico Pedro Cem por todos os seus convidados de outrora, nas redondezas da velha torre ouvia-se um murmúrio humilde de um pedinte esfarrapado que dizia aos que raramente ali passavam:
- Dê qualquer coisinha, dê qualquer coisinha a Pedro Sem, que já teve e agora não tem...
A Moura das Virtudes
- O texto é um reconto da lenda registada por Hélder Pacheco (em Tradições Populares do Porto, 1985, p. 114).
Diz o povo que na zona das Virtudes existiu, há “milénios”, uma moura encantada.
Diversas vezes, a moura se encontrava junto à fonte, talvez a beber, talvez a pentear-se, vendo o seu rosto nas águas... No entanto, tinha o seu esconderijo, do qual era a única proprietária. Costumava entrar numa porta, mesmo ao lado dessa fonte, porta a que ninguém mais tinha acesso.
Porém, era habitual o povo ouvir sons estranhos provindos do interior desse esconderijo.
As pessoas sabiam que para que a moura pudesse ser desencantada, alguém teria de se oferecer para ali passar a noite.
Ainda houve essa esperança. Mas o tempo foi avançando e ninguém teve a coragem de passar uma noite junto à “casa” da Moura.
Por isso, a moura nunca foi libertada do seu encanto!
As Sereias
- O texto é um reconto da lenda registada por Hélder Pacheco (em Tradições Populares do Porto, 1985, p. 114).
A casa da Bandeirinha, de aspecto imponente, parece dominar o bairro de Miragaia e observar a ligação deste ao Douro.
Quem ali passa de dia apenas vislumbra a grandiosidade do edifício, no qual se destacam duas esculturas de sereias que guardam a porta principal da casa.
Contudo, à noite, a situação é bem diferente.
Na escuridão, as sereias ganham vida e conseguem encantar quem por ali aparece, principalmente rapazes e homens.
Aqueles que se atrevem a passar nesse local a altas horas da noite, ficam de tal modo “encantados” pelos poderes das sereias, que é usual vê-los correr pelo morro totalmente desorientados.
O bispo S. Basileu
- O texto é um reconto da lenda registada pelo Padre Miguel de Oliveira (em Lendas Apostólicas Peninsulares, Separata da Revista Lvsitania Sacra, 1959, p. 20).
Uma tradição ligada à Igreja de S. Pedro de Miragaia diz que ali esteve S. Basileu ou S. Basílio que foi bispo da diocese do Porto.
S. Basileu era natural da Hispânia, donde partiu em novo com os seus pais para a Palestina. Pedro e João encontraram-no coxo e a pedir esmola à porta do templo de Jerusalém .
Curado da enfermidade, recebeu o baptismo e resolveu acompanhar o apóstolo S. Tiago à Hispânia.
Foi condiscípulo de S. Pedro de Rates e foi este Santo que o nomeou para a Igreja de S. Pedro de Miragaia.
A tradição diz também que, mais tarde, Basileu ou Basílio sucede a S. Pedro de Rates em Braga.
Os Tripeiros
- O texto é um reconto da lenda registada por Gentil Marques (em Lendas de Portugal, 1997, vol II: 172-175).
No ano de 1415, havia uma azáfama de construção de naus e de outros barcos a que os portuenses já não estavam habituados.
O povo não encontrava porém uma explicação para tal.
Os mais velhos, recordando o tempo da crise de 1383 a 1385, diziam que os barcos levariam D. João I no cumprimento de uma das promessas feitas a Deus pela vitória sobre os castelhanos: a sua ida ao Santo Sepulcro. Contavam os homens desse tempo que, também nessa altura, o Porto tinha construído a sua armada, a qual, comandada por Rui Pereira, tinha ido em auxílio do Mestre de Avis.
Ora, foi o próprio Infante D. Henrique que veio ao Porto.
Inspeccionou os trabalhos e chamou os homens da sua confiança, quase todos velhos marinheiros que, noutros tempos, tinham lutado pela causa do Mestre.
Após lhes ter pedido o máximo segredo, D. Henrique disse com aquela firmeza que as gentes do Porto conheciam:
- Esta armada que estamos a construir tem como destino...a conquista de Ceuta!
Depois, acrescentou:
- El-rei consente e o meu sonho vai tornar-se realidade.
Os marinheiros benzeram-se e disseram em coro:
- Que Deus vos oiça, Senhor Infante!
O Infante tratou então de dar as orientações necessárias para que a armada estivesse pronta nos primeiros dias de Julho. A tudo os marinheiros anuíam.
Depois, um deles, talvez o mais velho, exclamou:
- Senhor Infante, se mo permitis... Faremos agora o mesmo que fizemos há precisamente trinta e um anos, quando daqui partiu a frota, que tinha como comandante o abnegado D. Rui Pereira, para ir auxiliar el-rei, vosso Pai e nosso Senhor, contra os castelhanos... Então, nós, Senhor Infante, decidimos dar toda a carne para mantimento e ficarmos apenas com as tripas... Por isso mesmo, até passaram a chamar-nos «tripeiros».
O Infante, emocionado, respondeu:
- Tendes razão... Esse nome de «tripeiros»... por sacrifício tão nobre e tão alto... é sem dúvida uma verdadeira honra para os homens do Porto... Bem vos podeis orgulhar de serdes tripeiros!
Após este encontro, os marinheiros disseram à população que, de novo, teria de se sacrificar para honra do reino e da cidade... e que a designação de Tripeiros, instituída havia cerca de trinta anos, perduraria para sempre.
Então, mais uma vez, o povo do Porto entregou toda a carne para a armada de Ceuta, ficando apenas, para a sua própria alimentação, com as tripas dos animais.
E fizeram-no com a certeza de que essa atitude não mais seria esquecida e que as gerações futuras usariam o epíteto de Tripeiros com muito orgulho e altivez.
Gaia ou Miragaia
Versão de José Hermano Saraiva
- Este texto (adaptado) tem como base a versão apresentada por José Hermano Saraiva (em O Tempo e a Alma – Itinerário Português, 1986, vol I: 86-87)
Quando havia guerra entre mouros e cristãos, o rei mouro Abencadão entrou na Galiza, roubou a rainha e trouxe-a consigo para o seu castelo de Gaia. Quando o rei Ramiro chegou ao palácio e o soube, deu logo ordens para fretar navios, nos quais navegou até S. João de Afurada.
Mandou esconder os soldados e deu-lhes ordem para só atacarem quando ouvissem o toque do corno. Vestiu-se de mouro, subiu pelas veredas da margem até perto do castelo e parou junto de uma fonte onde estava uma moura donzela da rainha, chamada Ortiga, a encher uma cântara de água para levar à sua senhora. O rei Ramiro pediu-lhe que lhe desse de beber e aproveitou esse instante para meter dentro da bilha a metade de um anel de camafeu que tinha dividido com a rainha. A rainha mandou-o chamar e perguntou-lhe:
- Rei Ramiro, que te trouxe aqui?
- O teu amor.
- Vieste buscar a morte?
Depois, mandou-o fechar numa câmara e quando chegou o mouro Abencadão perguntou-lhe:
- Se tivesses aqui o rei Ramiro, que lhe farias tu?
- O mesmo que ele a mim: matava-o.
A rainha mandou trazer o marido. O mouro interrogou:
- Que vieste fazer aqui?
- Vim ver minha mulher!
- Se tu me apanhasses assim na tua terra, que morte me davas?
O rei cristão já estava com bastante fome, de modo que respondeu:
- Mandava dar-te um capão assado, uma regueifa, uma grande taça de vinho. Quando estivesses satisfeito, mandava-te subir àquela torre e tocar o corno até se acabar o fôlego e rebentares.
O rei mouro achou uma boa ideia:
- Pois essa morte te quero eu dar.
O rei Ramiro comeu e bebeu, subiu à torre, atordoou a noite com o som do corno, e os seus homens, ao ouvirem o sinal, entraram no castelo, descabeçaram até os mouros mais pequenos que havia em toda a Gaia e fugiram a seguir, levando a rainha, as donzelas e todo o haver existente no palácio de Abencadão.
Meteram-se no navio e navegaram até à foz de Âncora. Aí amarraram os barcos, comeram e folgaram. Depois de ter folgado com a rainha, o rei Ramiro deitou a cabeça sobre o seu regaço e adormeceu. A rainha velava e chorava. As grandes lágrimas escorriam-lhe dos olhos e iam cair na face do rei adormecido. Ele despertou, e não pôde compreender porque chorava a rainha que acabava de ser libertada. Perguntou-lhe. Ela respondeu:
- Choro por aquele bom mouro que mataste.
O filho do rei ouviu aquilo e disse que aquela mulher era o demónio e não podia ir no barco. Ramiro concordou; ligou-lhe na garganta uma mó, que vinha na nau, entre o lastro, e ancorou-a no fundo do mar. É por isso que desde então se chama ao lugar praia de Âncora.
O rei voltou ao seu palácio dos montes asturianos, baptizou a moura Ortiga com o nome de Aldara e teve dela um filho a quem pôs o nome de Alboazar.
Ora foi este filho que teve muitas lides com os Mouros, tirou-os de todo o Ante Douro e de Além montes contra Bragança, passou-se além de Douro a Lamego, fundou o Mosteiro de Santo Tirso, e foi o tronco donde descendem todos os Mendes da Maia e muitos outros bons fidalgos de Portugal.
Versão de Fernanda Frazão
- Este texto (adaptado) tem como base a versão apresentada por Fernanda Frazão (em Lendas Portuguesas, Vol I: 121-132.)
O rei Ramiro II ouvira falar da formosura e bondade de uma moura de alta estirpe, irmã de Alboazer Alboçadam. Eram estes mouros filhos de D. Çadam Çada, bisneto do rei Aboali, que conquistara a terra de Espanha no tempo do rei Rodrigo. Alboazer Alboçadam era senhor de toda a terra desde Gaia até Santarém e manteve várias guerras com os cristãos, especialmente com o rei Ramiro.
Pelo muito amor que sentia pela moura, o rei Ramiro decidiu fazer as pazes com Alboazer e mandou dizer-lhe que desejava vê-lo a fim de cimentarem a amizade. Alboazer respondeu-lhe que tinha muito prazer nisso e que o esperava em Gaia.
Meteu-se o rei Ramiro a caminho de Gaia e chegado ao castelo do mouro Alboazer Alboçadam, pediu que lhe desse a irmã. Disse-lhe que a faria cristã e casaria com ela.
Alboazer respondeu-lhe então:
- Tu tens mulher e filhos dela, és cristão!... Como podes tu casar duas vezes?
D. Ramiro admitiu que era verdade, mas como era parente de D. Aldora, a Santa Igreja separá-los-ia facilmente. Alboazer, porém, jurou-lhe que não lhe daria a irmã nem que em troca ele lhe oferecesse todo o seu reino.
Vexado, o rei Ramiro não insistiu mais. Contudo, como trazia consigo o astrólogo Amã, ordenou-lhe que estudasse a maneira de poder raptar a moura. Assim, em certa noite propícia, tirou-a donde estava e levou-a para as galés que estavam prestes para partir.
Alboazer, muito ofendido, e ouvindo dizer que Aldora estava em determinada vila, raptou a Rainha, donas e donzelas, metendo-as nas naus em direcção a Gaia. Quando D. Ramiro teve novas deste rapto, ficou destrambelhado e diz-se que andou como louco uns doze dias.
Recuperado, mandou chamar seu filho Ordonho e muitos outros vassalos, meteram-se em cinco galés e algumas galeotas e partiram.
Cerca de S. João de Furado, a que hoje chamam S. João da Foz, cobriu os barcos de panos verdes e entrou de mansinho na barra. Só dali abalariam quando D. Ramiro fizesse soar o seu corno de caça e, nessa altura, todos deveriam acorrer o mais depressa possível.
D. Ramiro vestiu-se como pedinte e dirigiu-se até uma fonte que ficava sob o Castelo de Gaia.
Uma serva da Rainha, chamada Perona, foi à fonte. Viu ali o Rei, mas não o reconheceu naqueles andrajos.
D. Ramiro meteu na boca meio camafeu, cuja outra metade estava com a Rainha, e ao beber a água dada pela serva, deixou-o cair dentro da caldeirinha.
D. Aldora viu o camafeu e imediatamente o reconheceu, tendo-lhe perguntado:
- Rei Ramiro, que te traz aqui?
- O vosso amor.
- Tu não me tens amor! Levaste daqui Artiga, que prezas mais do que a mim! Agora vai-te para essa sala, que depois irei ter contigo.
Mal o Rei entrou na grande sala abobadada, ela fechou-lhe a porta com um cadeado.
Entretanto, Alboazer voltou da montaria e foi ver D. Aldora, que imediatamente lhe perguntou:
- Se aqui tivesses o rei Ramiro, que lhe farias?
- O que ele me faria a mim: matá-lo com grandes tormentos!
E o rei Ramiro a ouvir tudo.
- Pois, senhor, aqui o tens fechado nesta sala. Podes vingar-te dele à tua vontade!
Percebendo que tinha sido enganado pela sua mulher, o rei Ramiro viu que já só dali sairia com alguma artimanha. E disse em voz bem alta:
- Alboazer Alboçadam, sei que errei contigo. Confessei-me deste pecado ao meu abade e ele ordenou-me que, como penitência, aqui viesse para que me matasses ante todos os da tua família. A minha morte deve ser pública para minha desonra e, como o meu pecado foi conhecido em tantas terras, deverei fazer soar o meu corno para que todas as tuas gentes tenham conhecimento do meu arrependimento. Mete-me no terreiro e eu tocarei o corno até que a alma me saia do corpo e assim me possa salvar. Não me negues este pedido, pois, pela tua lei, deves salvar as almas de todas as outras religiões, se te for possível!
- Alboazer Alboçadam, fraco de coração! Eu sei quem é o rei Ramiro! E tenho a certeza que se o salvares da morte não lhe escaparás, porque ele é astucioso e vingativo.
Silenciosamente Alboazer olhou a Rainha enquanto pensava:
«Infeliz é o homem que se fia numa mulher. Ela é sua mulher legítima e, contudo, deseja-lhe uma morte desonrada. Nada lhe devo a ela pelo que fiz: afastá-la-ei de mim!»
No entanto, disse ao rei Ramiro:
- Ao vir aqui fizeste uma grande loucura, já que nos teus paços poderias ter cumprido a penitência. Mas como sei que se me tivesses em teu poder, eu não escaparia à morte, quero cumprir o que me pedes para salvação da tua alma.
Mandou que o levassem para o terreiro e o pusessem sobre um padrão que lá havia.
O mouro chamou toda a gente e o Rei desatou então a tocar o corno com todo o seu fôlego para que os seus o ouvissem bem.
O infante D. Ordonho acorreu o mais depressa possível com todos os seus vassalos e entrou pela porta do terreiro que, inadvertidamente, estava escancarada.
O rei Ramiro desceu rapidamente do padrão e indo ter com o infante, disse-lhe:
- Meu filho, que nem a vossa mãe morra nem as donas e donzelas! Dona Aldora outra morte merece!
Desembainhando a espada, desferiu um tão rude golpe em Alboazer que o fendeu da cabeça até aos peitos. Além deste, morreram todos os mouros e mouras que estavam no terreiro, incluindo quatro filhos e três filhas de Alboazer. Quanto à vila de Gaia, não ficou pedra sobre pedra.
Finda a batalha, D. Ramiro pegou na mulher, nas outras donas e donzelas e em tudo o que pôde carregar de tesouros da vila e levou tudo para as galés. Em seguida, reuniu o filho e os vassalos para lhes contar o procedimento da Rainha, à qual poupara a vida para lhe fazer mais crua justiça quando chegasse à sua terra. Ante aquele relato, todos ficaram espantados por tamanha maldade ser possível numa mulher e a D. Ordonho saltaram-lhe as lágrimas dos olhos enquanto dizia a seu pai:
- Senhor, a mim não me cabe falar nisto, pois que é minha mãe. Contudo, fazei o que deveis pela vossa honra!
Entraram então nas galés e navegaram até à Foz de Âncora, onde pararam para descansar. Alguém veio avisar D. Ramiro de que a Rainha chorava e ele decidiu que fossem vê-la.
- Porque chorais?
- Porque mataste aquele mouro que era bem melhor que tu!
Então o infante exclamou para o pai:
- Isto é o demo! Cuidado, meu pai, ou ainda nos fugirá!
O Rei mandou amarrar uma mó ao pescoço da Rainha e atirou-a ao mar. E, desde então, chamam àquele lugar Foz de Âncora, assim como ficaram chamando Montedor ao local onde Alboazer foi assassinado pelo feroz rei Ramiro.
Diz a lenda que por este pecado que o infante D. Ordonho cometeu contra sua mãe foi deserdado do reino de Castela.
Entretanto, o rei Ramiro voltou para Leão, onde contou todas as maldades da rainha Aldora. Pretendendo casar com Artiga, mandou consultar o astrólogo Amã, e como este dissesse que ela era uma pedra preciosa entre as mulheres do seu tempo, foi muito louvada a pretensão do Rei. Disse ainda, o grande Amã que Artiga havia de ser muito boa cristã e que dela nasceriam gerações de homens de grandes e corajosos feitos.
Versão de Almeida Garrett
Cantiga Primeira
(...)
O rei veio da cilada
D`além do Doiro passar,
E furtou a linda moira,
A irmã d`Alboazar.
(…)
Chora a triste da rainha,
Não se pode consolar;
Deixá-la por essa moira,
Deixá-la com tal desar!
(...)
São sete os moiros que entraram
Sete os estão a aguardar;
Não falam nem uns nem outros
E prestes a cavalgar!
(…)
Toda a noite, toda a noite
Vão correndo sem cessar,
Pelos montes trote largo,
Por vales a desfilar.
(…)
Vai o dia alvorecendo,
Estão à beira do mar,
Que rio é este tão fundo
Que nele vem desaguar?
A boca já tinha livre,
Mas não acerta a falar
A pasmada da rainha...
Cuida ainda de sonhar!
(…)
Cantiga Segunda
(…)
Na encosta do castelo
Uma fonte está a manar;
Donzela que está na fonte
Pôs-se o romeiro a escutar.
(...)
«Sente-se o bom do romeiro,
Assente-se a descansar.
Fresca é a fonte, doce a água,
Tem virtude singular:»
(...)
- «Venha já esse romeiro
Que lhe quero já falar:
Embaixador deve ser
Quem trás presente real.»
Cantiga Terceira
(...)
Em pé está Dom Ramiro,
Já não há que disfarçar:
Aquelas barbas tão brancas
Caíram de um empuxar.
(….)
Vingar-se foi o primeiro
E o derradeiro pensar
Que entre tantos pensamentos,
Em Gaia estão a pular:
Logo depois a vaidade,
O gosto de triunfar
Num coração que foi seu,
Que seu lhe torna a voltar.
(…)
Protesta a boca a verdade:
-«Que não há-de perdoar....»
Mas a verdade dos lábios
Os olhos querem negar.
(...)
Cantiga Quarta
(...)
À popa vai Dom Ramiro
De sua galé real
Leva a rainha à direita,
Como quem a quer honrar:
(…)
Ainda arde, inda fumega
O alcáçar de Alboazar;
Gaia alevantou os olhos,
Triste se pôs a mirar;
As lágrimas, uma e uma
Lhe estavam a desfiar,
Ao longo, longo das faces
Correm... sem ela as chorar.
Olhou el-rei para Gaia,
Não se pôde mais calar;
Cuidava o bom do marido
Que era remorso e pesar.
(...)
«Perguntas-me porque choro!...
Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.
Perguntas o que miro?
Traidor rei, que hei-de eu mirar
As torres daquele alcáçar,
que ainda estão a fumegar.
Se eu fui ali tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar!
- «Pois mira, Gaia!» E, dizendo,
Da espada foi arrancar:
Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»
Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fora empuxa o corpo
O Doiro que os leve ao mar.
Do estranho caso inda agora
Memória está a durar;
Gaia é o nome do castelo
Que ali Gaia fez queimar:
E dalém Doiro, essa praia
Onde o barco ia aproar
Quando bradou- «Mira, Gaia?»
O rei que a vai degolar,
Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem - Miragaia
Daquele fatal mirar.
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